terça-feira, 6 de outubro de 2020

Licença para ensinar?

 


O que a sociedade espera de um licenciado?

Cristina Maria Rosa

 

 

A sociedade contemporânea demanda, de acordo com os fundamentos pedagógicos balizadores do documento que deu origem à Base Nacional Comum Curricular[1], “um olhar inovador e inclusivo a questões centrais do processo educativo”. Assim, “o que aprender, para que aprender, como ensinar, como promover redes de aprendizagem colaborativa e como avaliar o aprendizado” são temas cruciais e típicos do rol de conhecimentos que a disciplina Teoria e Prática Pedagógica deve abordar na formação de professores nas licenciaturas da UFPel.

O perfil previsto para profissionais licenciados[2], no Brasil, é o definido pela BNCC. Nos fundamentos pedagógicos do documento se encontra o conceito de competência, adotado pela BNCC como “marca” da discussão pedagógica e social das últimas décadas.

Para a BNCC, desde as décadas finais do século XX e ao longo deste início do século XXI, “o foco no desenvolvimento de competências tem orientado a maioria dos Estados e Municípios brasileiros e diferentes países na construção de seus currículos”. Apesar de controverso, é este enfoque que tem sido adotado nas avaliações internacionais da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que coordena o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) que instituiu o Laboratório Latino-americano de Avaliação da Qualidade da Educação para a América Latina (LLECE).

Ao adotar esses protocolos, a Base Nacional Comum Curricular indica que “as decisões pedagógicas devem estar orientadas para o desenvolvimento de competências”.

Assim, por meio da indicação clara dos conhecimentos, habilidades, atitudes e valores que os alunos devem “saber” e “saber fazer”, prepondera na BNCC a “mobilização desses conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho”.

Brasil a e BNCC

Na BNCC Ensino Médio[3], encontramos a área de Ciências da Natureza e suas Tecnologias (página 537), que definem as Competências específicas de Ciências da Natureza e suas Tecnologias para o Ensino Médio (página 539) e as competências específicas e habilidades (página 540) e a área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (página 547), que define as Competências específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas para o Ensino Médio (página 558) e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas no Ensino Médio: competências específicas e habilidades (página 559).

Essa é a lei que rege todas as proposições curriculares no País, desde a escola básica até a formação de professores nas Universidades. Apesar da relativa autonomia curricular defendida e empreendida pelas Licenciaturas, há um consenso de que um profissional, em termos gerais, tem de ter algumas habilidades. Quais seriam?

Conhecimentos e habilidades

Desejado pela sociedade (familiares, escolas, estudantes, pares, sistemas de ensino), o licenciado, oriundo do ensino superior, que exercerá a docência após a conquista do diploma, deve ser capaz de dominar princípios gerais e fundamentos da sua área de estudos. Além disso, é esperado que seja capaz de descrever e explicar fenômenos, processos e equipamentos tecnológicos em termos de conceitos, teorias e princípios. Ao diagnosticar, formular e encaminhar a solução de problemas experimentais e teóricos, práticos ou abstratos, fazendo uso dos instrumentos apropriados, é almejado que seja capaz de propor e elaborar projetos de pesquisa na área, mantendo atualizada a sua cultura científica geral e técnica específica.

Ao observar programas de Licenciaturas no Brasil, observei que muitas delas imaginam que o licenciado seja capaz de desenvolver uma ética de atuação profissional, uma vez que, no Ensino Superior, entra em contato com a ciência como conhecimento histórico, desenvolvido em diferentes contextos sociopolíticos, culturais e econômicos.

Assim, se almeja que os licenciados consigam problematizar, juntamente com os estudantes, um grupo de fenômenos sociais e mediatizar o processo de ensino-aprendizagem, assumindo um papel de orientador das atividades propostas, sendo um elemento motivador e incentivador do desenvolvimento dos aprendizes.

Ao buscar o domínio do processo de ensino de sua ciência, o licenciado deve ser capaz de estabelecer diálogo entre a sua área e as demais áreas do conhecimento no âmbito educacional, ou seja, na escola e na sociedade.

Pode, como valor agregado, articular ensino e pesquisa na produção e difusão do conhecimento se for capaz de desenvolver metodologias e materiais didáticos de diferentes naturezas, coerentemente com os objetivos educacionais almejados por ele, pela área, pelo grupo e/ou pela escola onde atua.

Ao utilizar a linguagem científica na expressão de conceitos, na descrição de procedimentos de trabalhos científicos e na divulgação de seus resultados, estará articulando atividades de ensino com a pesquisa e a propagação de conhecimentos.

Planejar, executar e avaliar propostas pedagógicas de sua área em confluência com as demais, na escola, é uma das habilidades esperadas de um docente oriundo do Ensino Superior que, desse modo, pode atuar propositivamente na busca de soluções políticas, pedagógicas e técnicas para questões propostas pela sociedade.

Cabe ainda, ao docente, planejar, desenvolver e avaliar os processos de ensino e de aprendizagem nos níveis de ensino fundamental e médio.

Parece muito?

É muito.

Mas...

É impossível?

Questões para pensar e primeira tarefa:

1.      Quais as habilidades típicas do exercício da profissão “professor”? Faça uma lista...

2.      Quais as habilidades típicas do exercício da profissão “professor de física”, “professor de história”? Componha uma lista...

3.      Tarefa: Leia a BNCC na sua área para a discussão na próxima aula.



[1] Resolução do Conselho Nacional de Educação – Resolução nº 4, de 17 de dezembro de 2018. Publicada no Diário Oficial da União em 17 de dezembro de 2018. Disponível em: http://estaticog1.globo.com/2018/12/18/DiarioOficialUniao.pdf?_ga=2.129165450.768343636.1601999848-1139822549.1591717229

[2] Perfil profissional inclui três grupos de habilidades: cognitivas, técnicas e atitudinais/comportamentais, de acordo com Sonia Gondim em: Perfil profissional e mercado de trabalho: relação com formação acadêmica pela perspectiva de estudantes universitários. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X2002000200011

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