segunda-feira, 12 de outubro de 2020

TPP: Leituras complementares

 


Peninha conta em dicionário a história da Independência do Brasil

Cristina Maria Rosa

 

Ouviram o quê do Ipiranga? O novo livro de Eduardo Bueno, Dicionário da Independência – 200 anos em 200 verbetes, conta de maneira direta e descontraída os acontecimentos em torno do processo de separação entre Brasil e Portugal[1].

O lançamento do volume está previsto para o dia 15 de setembro, mas já é possível comprá-lo em pré-venda até o dia 14 pelo site da Editora Piu.   Originalmente, o projeto do jornalista era realizar um dicionário com verbetes sobre o descobrimento do Brasil. Porém, em 2018, foi anunciado o Prêmio de Incentivo à Publicação Literária - 200 Anos de Independência, promovido pelo então Ministério da Cultura (hoje uma secretaria). Peninha, como Bueno é conhecido, decidiu adaptar o formato para verbetes abordando a Independência do país – episódio que completa 200 anos em 2022 – e foi contemplado pelo edital. 

Como a Editora Piu — cuja proprietária é a sua esposa, Paula Taitelbaum, responsável pelas ilustrações do dicionário – tem como base o público infantojuvenil, o projeto se direcionou para essa faixa etária. Porém, o jornalista destaca que o público do livro pode ser mais amplo:

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– Sempre quis fazer um livro para crianças de 8 a 88 anos. Embora seja um livro infantojuvenil, pega outro público também.

Peninha virou um fenômeno editorial com seus livros sobre a história do Brasil – em especial, sobre o período colonial. Em 2017, lançou no  YouTube o canal Buenas Ideias, em que apresenta fatos históricos "através de um ponto de vista divertido, que marca a genialidade e humildade do autor", como diz na descrição. Ele também levaria a história do Brasil para os palcos com o espetáculo stand-up Não Vai Cair no Enem – Uma Peça

Natural de Porto Alegre, Peninha passou uma parte da infância em São Paulo. Ele lembra de visitar o riacho do Ipiranga (às margens do qual Dom Pedro I proclamou a Independência, em 7 de setembro de 1822) e o Museu do Ipiranga em passeios escolares. Foi nessa época que uma curiosidade se instaurou nele. 

– Entrei numa trip não só de gostar de história, mas de vincular a história ao lugar onde ela se passa. Já pequeno, eu ficava pensando por que o riacho era tão podre. Eu me perguntava se já era assim na época da Independência (risos) – recorda.

Continuidade ou morte

Em Dicionário da Independência, Peninha traz informações e curiosidades em tom bem-humorado a respeito do Grito do Ipiranga. Entre os verbetes que vão de "Abdicação" até "Zodíaco", passando por alguns inusitados como "Diarreia" e "Demonão", ele apresenta personagens e fatos em textos curtos e didáticos sobre o antes e o depois da Independência.

– É uma forma divertida de tu contar a história. Pode se abordar desse jeito Peninha e debochar, mas, cara, é uma proposta de reflexão – ressalta o autor.

O dicionário joga luz na participação feminina na Independência: "D. Leopoldina assinou o decreto de Independência. Maria Quitéria lutou vestida de homem. Madre Joana Angélica morreu defendendo seu convento dos portugueses. E Maria Felipa teria liderado um grupo de marisqueiras que lutou em Itaparica", descreve o verbete "Mulheres".

– Um dos objetivos do livro era deixar claro o quanto as mulheres tiveram uma participação decisiva nessa história – destaca Bueno.

Segundo o jornalista, o propósito principal do dicionário vai ao encontro de algo que ele costuma repetir: a Independência foi mais uma das ocasiões em que o Brasil mudou para continuar igual.  

No livro, ele aponta que país ficou independente, mas não só se manteve uma monarquia (ao contrário dos países vizinhos,  ex-colônias espanholas que optaram pela república), como também permaneceu sob o comando de um soberano português. Além disso, o país independente preferiu não abolir a escravidão. 

– A Independência do Brasil foi mais uma vez uma articulação da bancada ruralista (risos).  Foi uma articulação de grandes proprietários, de grandes latifundiários, para que se mantivesse a escravidão. Dom Pedro I nunca mexeu uma palha para acabar com a escravidão – pontua.

E o papel do povo na Independência do Brasil?

– Olha, nenhum. Foi uma articulação de elite. Quando houve batalhas contra os portugueses após o Grito do Ipiranga, o povo teve uma participação heroica, com sangue. Mas esse povo que lutou não recebeu nada.  A ordem social se manteve intacta: exclusivista e estratificada. 

No verbete "Independência", Peninha conclui: "Como quer que seja, uma coisa é certa: só é realmente livre o povo que conhece – e por isso constrói – a própria história".

Teoria e Prática Pedagógia: leituras complementares

 


Uma seleção de perguntas a Peninha

Cristina Maria Rosa

 

Autor da façanha de vender mais de 1 milhão de livros recontando a história do Brasil ao estilo jornalístico, na coleção Terra Brasilis, o escritor Eduardo Bueno volta à carga. Aos 56 anos, Peninha prepara seu primeiro romance histórico e afia a língua.

Performático como de costume, o autor fanático pelo Grêmio e por Bob Dylan não fugiu de polêmicas nas duas horas de conversa no seu escritório em Porto Alegre[1]. Nas respostas mais virulentas, inclinava a cabeça até o gravador e repetia aos berros alguma frase de efeito, recheada de palavrões:

- Será que gravou? - perguntava, rindo.

 

1.      Os que os brasileiros ainda precisam aprender sobre a história do 7 de Setembro? A versão ensinada nas escolas sobre a Independência corresponde aos fatos?

No instante em que o então príncipe D. Pedro decidiu desafiar seu pai, o rei D. João VI, e permanecer no Brasil, a independência já ficou desenhada. Poderíamos estar muito bem festejando hoje aquele 9 de janeiro de 1822, o dito Dia do Fico, como o momento em que o Brasil rompeu seus laços com Portugal. Até porque o que aconteceu no 7 de Setembro foi mera formalidade - embora, curiosamente, sem formalidade alguma, já que o príncipe estava desarranjado, com uma caganeira... real. No colégio, os alunos seguem aprendendo a versão cristalizada pelo quadro de Pedro Américo, pintado 60 anos depois, e a pedido de D. Pedro II, mais interessado em "fabricar" uma versão da história do que em desvendá-la. O importante seria deixar claro que, naquela ocasião, como em outras, o Brasil sempre mudou para continuar igual: nesse caso, para se manter uma nação retrógrada, dependente do braço escravo, meramente agroexportadora e avessa aos avanços republicanos. Afinal, além de ter sido um dos últimos países do continente a se tornar independente, foi o único que se manteve como uma monarquia, e o único que não aboliu a escravidão. Isso se repetiria várias vezes: na proclamação da República, na revolução de 30, no Estado Novo, no golpe militar em 1964. E, apesar de certos avanços sociais, também com o PT, que, após chegar ao poder, aliou-se a Sarney e a Collor, e teve presidente que andou até visitando Maluf...

2.      Neste dia 7, também começa a ir ao ar uma propaganda que você protagonizará, no papel de "maior historiador do mundo", para a mais bairrista marca de cerveja do Rio Grande do Sul. Como será esse papel?

Será exagerado, histriônico e debochado... como eu mesmo (risos). Sempre achei sensacional a ideia de ironizar essa certeza tão gaúcha de que somos os maiores e os melhores em tudo - que, aliás, eventualmente parece ser levada a sério por certos segmentos da mídia... Desta vez, o tema será a Revolução Farroupilha e eu, vestido como Bento Gonçalves, entro num bolicho para "ensinar" praqueles magrões do Bom Fim a "verdadeira" história da revolta: que nós não apenas a vencemos, "ganhamo de vareio, dando uma tunda nos brasileiro", tudo assim mesmo, sem plural, no mais perfeito gauchês. A gravação foi hilária. E o melhor é que vai estrear neste 7 de Setembro... E ainda no mesmo dia em que Extraordinários volta ao ar. Acho que vou até pedir uma cópia para agência para mostrar pros meus colegas de sofazão como é que se faz história de verdade (risos).

3.      Ao mesmo tempo em que suas obras históricas são sucesso de público, são criticadas por historiadores que apontam uma visão superficial e simplificada dos fatos históricos. Olhando para trás, há algo que você mudaria hoje em seus livros?

Não, não. Sempre achei isso uma falsa polêmica. Primeiro, porque ela nunca veio à tona mesmo para ter um debate. Todos os que eu chamei para o debate, não sei por que, fugiram da raia! Eu até sei: sou um cara de raciocínio rápido, debochado, cínico, controverso. Então o cara vem discutir comigo, está fodido. Mas na verdade os caras recusaram o debate porque não se sustentava. Fui acusado de fazer livros de divulgação. Aí eu disse: "Ah, legal são os de vocês, né, que são de não-divulgação". (risos) Tanto é que os grandes historiadores do Brasil, que admiro e respeito, esses saíram em minha defesa sem eu ter falado com eles. Meus livros têm muito dos méritos do jornalismo: a fluidez do texto, os truques e ganchos para prender a atenção. E quais são os defeitos do jornalismo, que meus livros também têm? Uma inerente superficialidade. Porque tu só consegues a fluidez narrativa se não esmiuçar demais. Para atingir o público que eu queria tinha que ser assim.

Como você avalia a relação do brasileiro com a sua história?

Das mais frágeis, né? Eu fiz um trabalho no History Channel que terminava sempre com a mesma frase, que é um clichê, mas é verdadeiro: povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la. Não é privilégio do brasileiro, mas os uruguaios e argentinos sabem muito mais da sua história do que a gente. Aqui os meus livros são considerados um fenômeno total, e são. Venderam quase 1,3 milhão de exemplares, num país de 200 milhões de habitantes. Ou seja, nós, os letrados, continuamos falando só para nós mesmos. O povo segue ali, do lado de fora...

Depois de 10 anos sem publicar, você já disse que a trilogia Carioca, que está escrevendo, é o projeto mais importante de sua vida. O que os leitores podem esperar desse romance histórico que pretende traçar a biografia do Rio desde sua descoberta, em janeiro de 1502, até a retomada do Morro do Alemão, em 2012?

É a melhor coisa que já fiz na vida. Sinto que todos os livros que eu fiz antes são uma espécie de preparação. Há muitos anos as pessoas sugerem que eu escreva ficção, desde o tempo em que eu era jornalista. Sempre soube que tinha um romance fermentando dentro de mim. E um dia amadureceu. Eu tomo banho pensando em livro a vida inteira. Tenho mais ideias de projetos do que eu possa realizar em três encarnações. E aí um dia veio na minha cabeça essa história do Rio de Janeiro, do nascimento até os dias de hoje. Tive até que me apoiar na parede, porque veio a porra inteira de uma vez. Quase desmaiei! O livro vai ter também uma inovação de estilo, que é uma linguagem diferente para cada período histórico, desde o português falado no século 16 até a gíria estilo Tropa de Elite.

O que a biografia do Rio revela sobre a alma brasileira?

Durante quase 300 anos, o centro das decisões do Brasil foi o Rio de Janeiro, capital do país por 200 anos. Mas antes e depois disso o Rio de Janeiro exerceu o poder. De certa forma, foi capaz de se apoderar do imaginário do Brasil. Porque o Brasil é muito mais africano e nordestino do que carioca. Mas o Rio é tão mágico, em função da sua paisagem - e da ganância especulativa que isso despertou -, que mesmo o Brasil sendo africano, nordestino, amazônico ou sulista, o neguinho diz: ah, o Rio de Janeiro! E o Rio segue ditando modas e comportamentos, desde 1808 para cá.

Se fosse usar a história do Rio Grande do Sul para um romance, o que escolheria? Que período da história gaúcha lhe instiga mais? E que personagem?

Gostaria de escrever uma história similar à Carioca sobre o Rio Grande do Sul, que teria a ver com O Tempo e o Vento, mas em outra linguagem. Sempre fui muito ligado nos charruas e minuanos, e o gaúcho é um personagem inacreditável. Então, se esse lance der plenamente certo, como acho que vai dar, ameaço os gaúchos com um futuro livro sobre eles! E depois me mudo, porque não vou poder ficar aqui (risos).

E teria algum período específico?

Tudo. Desde os charruas. Eu não posso entregar, mas meio que já estruturei, termina com Brizola enfrentando Collor - e perdendo para ele, é claro. Até porque, depois de 1983, não aconteceu mais nada de relevante no Rio Grande do Sul, né. Então termina aí, com o Grêmio campeão do mundo (risos)!

Acho melhor mudarmos de assunto (risos). Após o sucesso da coleção Terra Brasilis e da febre dos livros de história, por que decidiu se dedicar a obras encomendadas?

Foi circunstancial, como tudo na minha vida. Nunca tive um plano de carreira, sempre fiz tudo aos trambolhões. E os livros de história fizeram um sucesso estrondoso, venderam quase 1,3 milhão de exemplares. Eu inventei esse mercado dos livros de história escritos por jornalistas. Sabia que existia uma demanda reprimida para a história colonial do Brasil tratada com um novo olhar. O que eu fiz foi pegar algo que estava aprisionado na sala de aula, que todo mundo achava que conhecia... Pedro Álvares Cabral, descobrimento do Brasil, capitanias hereditárias. Peguei isso e dei uma nova roupagem. Meus livros foram lidos pelo presidente do Brasil e pelo motorista do presidente do Brasil. Digo isso porque quando o Fernando Henrique nos chamou em Brasília, depois de ler os livros, conheci o motorista dele, e o motorista dele também tinha lido.

E por que então, no auge do sucesso, largou tudo para escrever livros encomendados?

Fui convidado pelo FH para escrever a história da Caixa Econômica Federal – e foi o primeiro livro sob encomenda. Peguei só pelo dinheiro, achando que a história era uma porcaria e que o dinheiro era uma maravilha. Aí virou quase o contrário: como era um negócio com o governo, 30% já ficou retido na fonte. Então o dinheiro não era tudo isso, mas a história era maravilhosa. Porque a Caixa foi fundada em 1861 pelo Mauá e pelo D. Pedro II, e eles brigaram por causa da Caixa... o Machado de Assis também foi superligado com a Caixa. Aí com esse livro eu caí nesse mercado institucional, e os caras começaram a me convidar cada vez mais. E com isso criei uma editora, a Buenas Ideias, com o meu irmão, Fernando, e a Ana Adams. E a gente fez 23 livros.

 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Licença para ensinar?

 


O que a sociedade espera de um licenciado?

Cristina Maria Rosa

 

 

A sociedade contemporânea demanda, de acordo com os fundamentos pedagógicos balizadores do documento que deu origem à Base Nacional Comum Curricular[1], “um olhar inovador e inclusivo a questões centrais do processo educativo”. Assim, “o que aprender, para que aprender, como ensinar, como promover redes de aprendizagem colaborativa e como avaliar o aprendizado” são temas cruciais e típicos do rol de conhecimentos que a disciplina Teoria e Prática Pedagógica deve abordar na formação de professores nas licenciaturas da UFPel.

O perfil previsto para profissionais licenciados[2], no Brasil, é o definido pela BNCC. Nos fundamentos pedagógicos do documento se encontra o conceito de competência, adotado pela BNCC como “marca” da discussão pedagógica e social das últimas décadas.

Para a BNCC, desde as décadas finais do século XX e ao longo deste início do século XXI, “o foco no desenvolvimento de competências tem orientado a maioria dos Estados e Municípios brasileiros e diferentes países na construção de seus currículos”. Apesar de controverso, é este enfoque que tem sido adotado nas avaliações internacionais da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que coordena o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) que instituiu o Laboratório Latino-americano de Avaliação da Qualidade da Educação para a América Latina (LLECE).

Ao adotar esses protocolos, a Base Nacional Comum Curricular indica que “as decisões pedagógicas devem estar orientadas para o desenvolvimento de competências”.

Assim, por meio da indicação clara dos conhecimentos, habilidades, atitudes e valores que os alunos devem “saber” e “saber fazer”, prepondera na BNCC a “mobilização desses conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho”.

Brasil a e BNCC

Na BNCC Ensino Médio[3], encontramos a área de Ciências da Natureza e suas Tecnologias (página 537), que definem as Competências específicas de Ciências da Natureza e suas Tecnologias para o Ensino Médio (página 539) e as competências específicas e habilidades (página 540) e a área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (página 547), que define as Competências específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas para o Ensino Médio (página 558) e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas no Ensino Médio: competências específicas e habilidades (página 559).

Essa é a lei que rege todas as proposições curriculares no País, desde a escola básica até a formação de professores nas Universidades. Apesar da relativa autonomia curricular defendida e empreendida pelas Licenciaturas, há um consenso de que um profissional, em termos gerais, tem de ter algumas habilidades. Quais seriam?

Conhecimentos e habilidades

Desejado pela sociedade (familiares, escolas, estudantes, pares, sistemas de ensino), o licenciado, oriundo do ensino superior, que exercerá a docência após a conquista do diploma, deve ser capaz de dominar princípios gerais e fundamentos da sua área de estudos. Além disso, é esperado que seja capaz de descrever e explicar fenômenos, processos e equipamentos tecnológicos em termos de conceitos, teorias e princípios. Ao diagnosticar, formular e encaminhar a solução de problemas experimentais e teóricos, práticos ou abstratos, fazendo uso dos instrumentos apropriados, é almejado que seja capaz de propor e elaborar projetos de pesquisa na área, mantendo atualizada a sua cultura científica geral e técnica específica.

Ao observar programas de Licenciaturas no Brasil, observei que muitas delas imaginam que o licenciado seja capaz de desenvolver uma ética de atuação profissional, uma vez que, no Ensino Superior, entra em contato com a ciência como conhecimento histórico, desenvolvido em diferentes contextos sociopolíticos, culturais e econômicos.

Assim, se almeja que os licenciados consigam problematizar, juntamente com os estudantes, um grupo de fenômenos sociais e mediatizar o processo de ensino-aprendizagem, assumindo um papel de orientador das atividades propostas, sendo um elemento motivador e incentivador do desenvolvimento dos aprendizes.

Ao buscar o domínio do processo de ensino de sua ciência, o licenciado deve ser capaz de estabelecer diálogo entre a sua área e as demais áreas do conhecimento no âmbito educacional, ou seja, na escola e na sociedade.

Pode, como valor agregado, articular ensino e pesquisa na produção e difusão do conhecimento se for capaz de desenvolver metodologias e materiais didáticos de diferentes naturezas, coerentemente com os objetivos educacionais almejados por ele, pela área, pelo grupo e/ou pela escola onde atua.

Ao utilizar a linguagem científica na expressão de conceitos, na descrição de procedimentos de trabalhos científicos e na divulgação de seus resultados, estará articulando atividades de ensino com a pesquisa e a propagação de conhecimentos.

Planejar, executar e avaliar propostas pedagógicas de sua área em confluência com as demais, na escola, é uma das habilidades esperadas de um docente oriundo do Ensino Superior que, desse modo, pode atuar propositivamente na busca de soluções políticas, pedagógicas e técnicas para questões propostas pela sociedade.

Cabe ainda, ao docente, planejar, desenvolver e avaliar os processos de ensino e de aprendizagem nos níveis de ensino fundamental e médio.

Parece muito?

É muito.

Mas...

É impossível?

Questões para pensar e primeira tarefa:

1.      Quais as habilidades típicas do exercício da profissão “professor”? Faça uma lista...

2.      Quais as habilidades típicas do exercício da profissão “professor de física”, “professor de história”? Componha uma lista...

3.      Tarefa: Leia a BNCC na sua área para a discussão na próxima aula.



[1] Resolução do Conselho Nacional de Educação – Resolução nº 4, de 17 de dezembro de 2018. Publicada no Diário Oficial da União em 17 de dezembro de 2018. Disponível em: http://estaticog1.globo.com/2018/12/18/DiarioOficialUniao.pdf?_ga=2.129165450.768343636.1601999848-1139822549.1591717229

[2] Perfil profissional inclui três grupos de habilidades: cognitivas, técnicas e atitudinais/comportamentais, de acordo com Sonia Gondim em: Perfil profissional e mercado de trabalho: relação com formação acadêmica pela perspectiva de estudantes universitários. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X2002000200011

domingo, 4 de outubro de 2020

Acesso aberto: o que é isso?


Declaração de Budapeste e a EaD

Cristina Maria Rosa

Como sabem, oriento dois estudantes de Especialização na FaE, em seus artigos finais. Um deles, Graciano, está preparando um artigo sobre a história da EaD, no mundo e no Brasil. Olha só o que descobriu, em sua pesquisa para o artigo final:


Uma velha tradição e uma nova tecnologia convergiram para tornar possível um bem público sem precedentes. A velha tradição é a disposição dos cientistas e acadêmicos de publicar os frutos de suas pesquisas em periódicos acadêmicos sem pagamento, por uma questão de investigação e conhecimento. A nova tecnologia é a internet. O bem público que eles tornam possível é a distribuição eletrônica mundial da literatura de periódicos revisados ​​por pares e o acesso totalmente gratuito e irrestrito a ela por todos os cientistas, acadêmicos, professores, alunos e outras mentes curiosas. Remover as barreiras de acesso a esta literatura irá acelerar a pesquisa, enriquecer a educação, compartilhar a aprendizagem dos ricos com os pobres e dos pobres com os ricos, tornar esta literatura o mais útil possível” (https://www.budapestopenaccessinitiative.org/read).

  

Vocês já conheciam a Declaração de Budapeste? Vejam esse artigo, que interessante: Manifestos do movimento de acesso aberto: Análise de Domínio a partir de periódicos brasileiros. In: file:///C:/Users/Cristina/Downloads/1152-4254-2-PB.pdf. Outro artigo interessante é: Acesso aberto à informação científica: políticas e iniciativas governamentais, disponível em: file:///C:/Users/Cristina/Downloads/4817-16796-3-PB.pdf

 

O que é o acesso aberto?

O Acesso Aberto é conhecido como um movimento que visa democratizar o conhecimento na sociedade, deixando este, passível de ser consultado facilmente pelos usuários. Nesse sentido, documentos como as três declarações (3 Bs ou BBB – Budapeste, Bethesda e Berlim) objetivam incentivar e compartilhar práticas e discussões a respeito do acesso aberto. Em contrapartida, o Brasil também conta com instituições e dispositivos legais, como a lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, que objetiva consolidar e regularizar os direitos autorais.

Aqui, uma análise dos documentos originais:

file:///C:/Users/Cristina/Downloads/4817-16796-3-PB.pdf

Essa é a declaração original:

https://www.budapestopenaccessinitiative.org/read

Esse documento, segundo os estudos do Graciano, deu impulso importante à disseminação da EAD no mundo, desde os anos 90 do século 20. Fiquei pensando em nós, brasileiros, que recém estamos aprendendo a nos comunicar, com qualidade, via internet.

Bom final de domingo a todos!

sábado, 12 de setembro de 2020

Pequeno glossário: sujeito letrado


Pequeno glossário: sujeito letrado
Cristina Maria Rosa

Condicionados pela sociedade letrada repleta de jornais, revistas, livros, folhetos, cartazes, placas, cartas, bulas, receitas, rótulos, anúncios, é fato que “deixar de conviver nesse universo é impossível, mesmo para os analfabetos”, como bem disse Graça Paulino (2004). Entre a história coletiva de leitura – a da espécie humana – e a de cada um há, no entanto, muitas peculiaridades.
No mundo complexo do letramento há vários graus e concomitâncias. Inicia com a alfabetização literária e, passando por diferenciados estágios, se atinge o grau de “usuário competente da língua escrita” ou, letrado.
Nos últimos anos, muitos pesquisadores se ocuparam em agregar valor ao termo letramento, inicialmente cunhado por Magda Soares (1999) e tornado termo em glossário em 2004. Nele, Soares escreveu:

Letramento é palavra que corresponde a diferentes conceitos, dependendo da perspectiva que se adote: antropológica, linguística, psicológica, pedagógica. É sob esta última perspectiva que a palavra e o conceito são aqui considerados, pois foi no campo do ensino inicial da língua escrita que letramento – a palavra e o conceito – foi introduzido no Brasil.  Posteriormente, o conceito de letramento se estendeu para todo o campo do ensino da língua e da literatura, e mesmo de outras áreas do conhecimento, mas, neste verbete, letramento é considerado apenas em sua relação com alfabetização.

E, em sua relação com a alfabetização, o que significa letramento? Para Soares, é uma palavra que, inicialmente, se associou ao termo Alfabetização. Para ela, alfabetização designa

[...] uma aprendizagem inicial da língua escrita entendida não apenas como a aquisição do sistema alfabético e suas convenções, mas também como a introdução da criança às práticas sociais da língua escrita, ou, mais amplamente, à cultura do escrito (SOARES, 2004, p. 180).

Incapaz de ter um sentido mais ampliado e com significado consolidado na língua, a palavra alfabetização – a aprendizagem do ler e do escrever – precisou de aporte teórico e metodológico. E atributos: passou a ser um estágio do letramento. Letramento, então, é, de acordo com Soares (2004):

[...] o desenvolvimento das habilidades que possibilitam ler e escrever de forma adequada e eficiente, nas diversas situações pessoais, sociais e escolares em que precisamos ou queremos ler ou escrever diferentes gêneros e tipos de textos, em diferentes suportes, para diferentes objetivos, em interação com diferentes interlocutores, para diferentes funções (SOARES, 2004, p. 180-181).

O início: a alfabetização literária
Ser alfabetizado literariamente significa ser apaixonado pela literatura, ter critérios próprios para escolher livros, um acervo e hábitos letrados. No processo de formação de um leitor, mediação, intensidade, diversidade, fluência, independência, autonomia e gosto literário são imprescindíveis.
Campo de saber visceral para o cérebro humano, a inteligência verbal deve ser desenvolvida ainda na infância e a alfabetização demanda pensamento, atitude, avaliação. Ininterruptamente. Assim, deve ser mediada por atitudes de escolha de procedimentos e artefatos cada vez mais sofisticados.
Artefatos culturais – livros, e-books, cd’s, vídeos, jogos, brinquedos – precisam ser acionados e seus conteúdos mediatizados através de leituras, diálogos, indicações, compartilhamento, trocas de impressões. A diferença que há entre jogar só ou em grupo, todos nós adultos, já conhecemos, mas, para a criança, é imprescindível a companhia.
A alfabetização literária é, também, um processo particular, pois cada pessoa atribui valores e sentidos muito próprios ao acontecimento e o “gosto” pela leitura não é um atributo genético. Então, a alfabetização literária pressupõe um sujeito que deseja – o futuro leitor; um sujeito que ama – o leitor e suas práticas leitoras e; um objeto de desejo: o livro, a literatura.
Tarefa para adultos
Como experientes da espécie, cabe a nós, adultos, propor um pacto com o novo leitor. Mediar o diálogo proposto pelo autor ao leitor. Revelar o literário que há na obra escrita. Selecionar livros que fascinam, pois é a dimensão imaginária que garante a invenção de outros mundos, em que nascem seres diversos, com suas ações, pensamentos, emoções.
Um desejo – ensinar o gostar de ouvir – deve orientar todo o processo. A certeza de que, maduro, o leitor pode escolher outros laços, outras letras, outras fontes, integra o desprendimento necessário e bem vindo de parte de quem alfabetiza.

Referências
PAULINO, Graça. Minha vida no mundo da escrita. In: Prática de leitura e ensino de literatura. Coletânea temática. Apresentação e organização de Hilda Orquídea Hartmann Lontra. INB/ Instituto de Letras, 2004.
SOARES, Magda. Letramento. Glossário CEALE. Belo Horizonte: UFMG/CEALE: 2004.
SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.