sexta-feira, 12 de junho de 2020

Professores: vínculo e trabalho durante a suspensão das aulas presenciais



Professores na Pandemia: reinvenção?
Cristina Maria Rosa
Estefânia Konrad

Em 21 de maio de 2020, o Grupo de Educação Tutorial – PET Educação – deu início ao estudo de um tema pertinente a esses “novos tempos”: o trabalho remoto. Para tal, criamos um grupo composto por 79 professores em uma rede social com o intuito de dialogar sobre vínculo e trabalho durante a suspensão das aulas presenciais. Deixamos claro, desde o início, que não revelaríamos a identidade dos integrantes do grupo no artigo final e, se alguém não se sentisse à vontade, poderia declinar do convite e sair do grupo, sem explicar nada.
O desejo era, ao fim de um tempo de perguntas e respostas, elaborar um pequeno artigo sobre como nós, professores, estamos nos relacionando com o estudo – ensino e a aprendizagem, nosso e de nossos alunos e/ou filhos – especialmente nesse tempo.
Aceito por um grupo de pessoas que se manifestou entusiasmadamente e abandonado por outro, o projeto foi levado a cabo nesta semana, quando publicamos os primeiros resultados do estudo que estás lendo.
O que pretendíamos?
Evidenciar como nós, professores, estamos sendo convocados a nos posicionarmos nesse momento em que a educação formal, presencial e remota, está em foco na sociedade.
Seja por terem os pais uma imensa dificuldade de inserirem-se em rotinas escolares enviadas pelos professores, seja por terem que permanecer ou retornar ao trabalho logo que alguns comportamentos foram liberando rotinas fora de casa, a educação passou a ser uma preocupação de quase todos: governos, direções de escolas, educadores, pais, avós e crianças.
Duas evidências: a garantia de que os filhos estavam no melhor lugar para a infância – a escola – já não mais existe e, a certeza de que tudo que ensinam lá é importante, também deixou de ser uma verdade.
Então, por que não dar voz àqueles que estão sendo chamados a responder a essa questão social e política através da qualidade, intensidade, frequência e resultado de seu trabalho?
Ao indagar aos professores como estão compreendendo esse momento, especialmente relacionado à profissão, entregamos, a quem está entre as demandas da sociedade e as demandas das crianças, a palavra.
Como trabalhamos?
Como metodologia de pesquisa, passamos, após a adesão de um grupo de pessoas, a enviar questões a serem respondidas em um determinado prazo. Importante ressaltar que o grupo criado também foi utilizado para divulgar projetos em desenvolvimento.
Algumas das questões foram: Como te sentes tendo que trabalhar remotamente? Se não estás trabalhando, como te sentes? O estás fazendo nesse tempo? Estudando? Tens equipamentos compatíveis com tuas necessidades atuais de estudo e/ou trabalho? Se não tinhas, adquiriste? Tens um local em casa para estudar e lecionar? Se não, organizaste?
As primeiras respostas...
Logo que enviamos a primeira mensagem, uma chuva de respostas começou a inundar nossas caixas de mensagem. Entre elas:

Gostei desse modo de anunciar, pois chama a atenção para cada nova pergunta. Assim como gostei de ver anunciada a data com o prazo pra resposta. E essas informações dão um toque especial e organiza o trabalho, pois, em meio à correria, auxilia a quem responde. #minha opinião!

Gostei da iniciativa. Importante discutirmos como nós professores estamos "nos constituindo" nesse momento e processo desconhecido.

É bom ter um grupo para trocar!

Eu topo!

Amei. Eu topo Cris. Queres que escreva direto aqui ou no Word?

Aguardo a pergunta e o prazo, estou disposta a participar.

Topo, Cris. Só esclarece melhor, partiríamos de um questionamento seu e nossa resposta seria para contribuir no artigo que estas organizando? Também poderíamos te enviar artigos que estamos organizando neste momento?

Topo!

Eu topo!

Ótima ideia!

Topo! Sou do AEE e estou aflita, preciso ser ouvida!

Obrigada Cris pela oportunidade...

Responder as questões propostas acima, já é uma prévia para buscar em nós as primeiras impressões dessa concretude que está nos constituindo, tempo jamais vivido. Parece que a vida foi interrompida. Aguardo a questão amanhã.

Eu topo!

Parabenizo a professora Cris e as demais colegas pelo dia de ontem! Pedagogia não é minha formação acadêmica, porém, sinto como se fosse! Um projeto que está na minha lista de desejos, bem no topo! Obrigada pelo convite querida!

Eu topo Cris! Eu sou professora do SAEE (AEE). Sinto-me muito preocupada com a aprendizagem dos meus alunos deficientes. Pois tenho alguns que as aprendizagens ocorrem só verbalmente. E estão sobrecarregados de atividades! E, ainda, a SEDUC exige que mandemos atividades também! A maioria não tem acesso à internet.

Se puder ajudar, estou dentro!

Amei a ideia deste grupo com a finalidade para a qual foi criado. A Cris sempre com ideias criativas, produtivas e inovadoras.

Desejo sucesso nas publicações e, na medida do possível, quero acompanhá-las por aqui. Beijos.

São muitos os desafios neste momento. Mas nós, professores da educação pública, o que mais sabemos fazer é nos reinventar.

Três professores
Paralelo a esse grupo de troca de mensagens, contatamos três professores que, integrantes de nosso grupo de relações próximas, se propuseram a nos dar um depoimento mais alongado.
Quais as características que nos fizeram escolher Antonio, Jéssica e Leo? Estarem trabalhando remotamente, serem de três locais de trabalho diferentes – escola privada, escola pública na periferia urbana e universidade – e terem formações diferenciadas.
As questões pensadas e enviadas para que esses três professores respondessem foram: Primeira vez que trabalhas remotamente? Tiveste formação específica na licenciatura para tal? Se não, onde adquiriu a formação? Como está sendo? Quais os “ganhos” e as “perdas” para tua constituição como profissional? Quais são os equipamentos usas? Quais os suportes de internet que tens usado? Relate uma curiosidade ocorrida...

Segunda mensagem
A segunda mensagem aos 79 professores foi enviada no dia 24 de maio. No corpo, escrevemos: “Boa noite, professores e professoras. Como anunciei quando da criação do grupo, Estefânia e eu estamos escrevendo um artigo sobre nossas atitudes durante a pandemia. O foco é revelar como nós, professores que trabalhamos, estamos sendo chamados a pensar a educação: em casa, com nossos filhos, na escola, com nossos colegas e remotamente, com nossos alunos e/ou orientandos. Envio, então, a primeira questão a todos que desejam colaborar: Esta é a primeira vez que trabalhas remotamente? Aguardo até quarta, quando enviarei nova questão. Obrigada”.
Dezenove professores responderam que sim, sete informaram que não estavam trabalhando remotamente e dois que não, já haviam tidos outras experiências.
Com essa primeira resposta, percebemos que parte considerável dos professores (67% dos que responderam) estava tendo a experiência de trabalho remoto pela primeira vez.
Em 28/05/2020, enviamos outra pergunta ao grupo. A pergunta foi: “Fizeste algum curso para trabalhar on-line?”. As possibilidades de resposta sugeridas foram: sim, não, estou fazendo, aprendi com tutoriais ou aprendi com colegas. O prazo acordado foi 01/06/2020. A resposta de uma professora da rede pública foi:

Não fiz nenhum curso. Na minha cidade, elaboramos as atividades que, impressas, foram entregues aos pais na escola. Para meus alunos que tem celular e usam o WhattsApp, as atividades foram enviadas. Poucos têm internet e celulares.

Uma resposta mais alargada veio de uma das depoentes:

Esta não é a primeira vez que trabalho remotamente. Trabalhei de 2005 a 2013 no Curso de Licenciatura de Matemática a Distância (CLMD); Curso de Educação do Campo (UFPel); Especialização em Mídias na Educação (UFPel); Coordenei um Programa de Pró Mobilidade Internacional CAPES/AULP entre Universidade Eduardo Mondlane e UFPel. Esse programa desenvolveu uma formação de professores para uso das mídias digitais, com os professores da UEM. Tenho o hábito de trabalhar de forma híbrida, nas disciplinas e seminários dos PPGS em que atuo. Fomos capacitados pela equipe do antigo CLM e a UAB ofereceu um curso para professores vinculados. Na época, eu era professora pesquisadora.

As demais respostas foram vinte “não”, seis “aprendi com tutoriais”, quatro “sim” e um “estou fazendo”. Além disso, uma pessoa que disse: "não, mas tenho passado parte do tempo pesquisando tutoriais adequados e outra parte do tempo, praticando estes tutoriais" e outra disse: "Aprendi com tutoriais ofertados pela mantenedora".
Percebemos, diante das respostas recebidas, que 63% nunca fez nenhum curso que os capacitasse para om trabalho que, remotamente, estão tendo de desenvolver.
Uma nova pergunta: equipamentos compatíveis
Diante do que percebemos com as repostas recebidas – professores trabalhando e inventando um modo de se comunicar – ficamos curiosos com o tipo de equipamento que esses dispunham para suas tarefas. Então, perguntamos. Diante dessa pergunta, muitos depoimentos. Entre eles:

Eu só tenho um NetBook e meu celular. Se há outros equipamentos mais adequados, desconheço quais sejam. Não faço ideia de como se edita vídeos.

Eu não tenho um celular adequado para baixar app de edição de vídeo, então pedi emprestado para um familiar. Adquiri muitos livros, que se estivesse na escola não iria fazer, pois na biblioteca tem muitos de boa qualidade...

Gostaria de fazer um relato, comecei toda a preparação de materiais para aulas e atividades online com os tutoriais, porém agora com o passar do tempo tenho feito alguns cursos. E ontem fiz um muito bacana e com um conteúdo muito rico "Docência no Contexto Online", ministrado pelo prof. Valmir Heckler, que eu achei excepcional, foi acho que a melhor troca de experiências que tive até esse momento, com dicas úteis. Em primeiro lugar porque não tenho essa formação de docência adequada com metodologias de ensino, pois nas "áreas duras", não temos nada formativo nesse sentido, acabamos apreendendo com o dia a dia na sala de aula, então isso acaba me angustiando muito, pois sempre fico muito preocupada com a qualidade das aulas que vou ministrar, não quero e, na verdade, a Universidade nunca forneceu esses equipamentos para o preparo das aulas, então o que eu preciso para as minhas atividades sempre adquiri. O que sempre me foi ofertado foi a estrutura de laboratório, para as aulas presenciais, porém os laboratórios são compartilhados e com agendas lotadas, ou seja, nele não se prepara atividades. E nesse momento continuo com esse mesmo sistema. Então para as aulas remotas, uso o meu notebook, a estrutura de gravação da que eu possuo (PC e celular) e a minha casa com as adaptações que são possíveis: arranjar uma parede em branco para ser fundo de gravações, apoiar notebook em cima de escada ou caixas para gravar as aulas, algumas coisas desse tipo. Porém, ontem a unidade CENG encaminhou um e-mail para. Também precisei comprar licença de software para edição porque não consegui me adaptar com os gratuitos.

Nossa, sobre equipamentos, eu tive que me equipar! Tinha o note e o celular, mas precisei comprar um quadro, canetas coloridas e transformar o quarto da minha filha em sala de aula com cartazes impressos e dispostos nas paredes. Sou professora de AEE, preciso mostrar para o aluno a atividade sendo desenvolvida para que resulte em resultados. Levei a sala de recursos para dentro de casa! Comprei jogos e confeccionei outros tantos em casa! Uso meu "pouco" tempo livre para estudar, pesquisar aplicativos, vídeos e plataformas que possam minimizar essa distância! Resulte em resultados ficou redundante! Desculpe

Não tenho equipamentos bons para a necessidade atual. Apenas utilizo meu celular, com memória mediana e com o qual executo os programas básicos baixados anteriormente às aulas online. Como sou muito curiosa e adaptada às novas tecnologias, eu me viro bem com o que tenho. Mas, ideal não é. Estou pensando em adquirir um equipamento melhor agora, para dar continuidade às aulas em junho. Quanto à internet, eu usava a minha, de dados, do plano de celular que eu tinha. Mas contratei um novo plano de internet, mais rápida, especialmente para as aulas na nova modalidade.

Utilizo meu notebook e meu celular e tenho dado conta do que foi/está sendo solicitado até o momento.

Eu tive de adquirir um celular novo, meu celular não tinha memória suficiente e nem agilidade, o sistema estava aquém de minhas necessidades e das necessidades da escola. Quanto às salas virtuais, eu domino o espaço virtual e já tinha computador compatível. Quando o assunto é edição de foto e imagem, preciso recorrer a uma amiga, ou seja, terceirizo meu trabalho, já que não sei lidar com edição. Acho bem chata a situação, quando particularizamos cada vez mais o que é público e não, não acho que seja cômodo e eficaz trabalhar de casa.

Utilizo meu notebook e meu celular (tive que comprar outro, com mais recursos, embora essa necessidade eu já estava tendo antes da pandemia)  e tenho dado conta do que foi/está sendo solicitado até o momento. Busco auxílio com pessoas que tenho relação para aprimorar e/ou ampliar meus conhecimentos acerca do uso das TICs, considerando que conto com essas duas ferramentas tecnológicas.

Não. Tive de adquirir um celular e um computador novos porque nenhum deu conta da demanda.

Eu uso meu computador (para as necessidades básicas, dá conta) não adquiri nenhum equipamento, mas tive que aumentar meu plano de internet. Sinto falta de um microfone e um webcam melhor. Não sei editar vídeos e essa é minha maior dificuldade. No entanto, como as aulas estão sendo ao vivo agora, não estou precisando utilizar os editores.

Eu tenho notebook, celular e microfone. Uso o plano de internet da minha residência. Estou conseguindo organizar meu trabalho pedagógico com as ferramentas que tenho.  Por enquanto, está tranquilo...

Trabalho em três escolas estaduais com o AEE  no interior  do estado. Eu ocupei meu celular (WhattsApp com alguns alunos) e o notebook para enviar e receber as atividades que foram enviadas para os alunos. A partir de segunda-feira, quem tem e-mail, conforme anunciado pelo governador e secretário, vamos iniciar a preparação  das aulas on-line. Mas a nossa realidade é bem complicada nas escolas, pois grande  parte  não  tem  acesso à internet, moram no  interior  do  município  e lá,  a internet  não  tem  sinal. Alguns, que moram na cidade têm, mas nem todos tem um celular, notebook ou computador  para  realização desse módulo de ensino  a distância.

Tenho Notebook, celular, tablet e plano de internet em minha residência. Alguns aplicativos, precisei baixar. A memória do celular será preciso aumentar. Contudo, o trabalho está sendo realizado com sucesso. Também conto com a ajuda de colegas que baixam vídeos e atividades com programas que não tenho. Ainda preciso complementar. Meus alunos precisam receber minhas atividades e estas precisam ser compatíveis com seus celulares e também fáceis de ser entendidas. Como exemplo, não posso enviar atividades em PDF ou links. Sei que muitas vezes é desconhecido da família, pois recém compraram o primeiro celular da família com tanta tecnologia. Antes, era aquele celular para atender e fazer ligações.

Minha escola, por ser técnica, tem uma boa quantidade de equipamentos. No entanto, muitas vezes por dificuldade de interação com o material – falta conhecimento, mesmo – por exemplo, a lousa digital, fica sem uso. A velocidade da internet não aguenta muita gente, 500 alunos utilizando e o governo não repassa o recurso suficiente que permita o ideal em quantidade e qualidade. Quanto a pergunta “se não tínhamos, adquirimos?”, nem penso numa hipótese desta. Usar do salário minúsculo para usos pessoais e transformá-lo para atender a uma demanda de agenda pública?!

Eu, no caso, não estou trabalhando on-line, sou da educação infantil. Mas, se tivesse que trabalhar através de aulas on-line, eu teria que adquirir equipamentos, pois, sei que meu celular e computador não comportam esses programas que muitos professores estão utilizando.

Até o momento, estou usando apenas o computador e o celular. Precisei baixar dois programas, mas de forma gratuita.

Tenho notebook e celular. Tem suprido a necessidade. Trabalho com Educação Infantil e meus encontros são com as colegas da escola. Neles, discutimos, estudamos e pensamos o pedagógico da escola, estratégias para o retorno (quando ele acontecer...). Também a maneira de manutenção do vínculo com as crianças e famílias através de narrativa de histórias, canções, compartilhamento das vivências dos profissionais, em família, nesse período de distanciamento social, através de redes sociais. A mantenedora adotou essa política para todas as etapas atendidas pelo município. Bem como disponibilizou tutoriais para aprimoramento da equipe gestora, que é multiplicadora com sua equipe de professores, no uso do GSuite. Os profissionais da Rede Municipal de Educação tem conta

Tenho trabalhado com meu notebook, meu celular e minha rede de internet pessoal.  Adquiri um suporte para o celular para facilitar a adequação da imagem nas reuniões on-line.

Estou utilizando os equipamentos que já tinha. Claro que existem mais modernos, mas estou utilizando o que já possuía.

Uso celular e notebook que eu já tinha

Não adquiri novos equipamentos. Meu celular e notebook são básicos e está servindo ao que foi solicitado até o momento. Caso seja solicitado pela Secretaria de Educação algo mais qualificado, necessitaria, provavelmente, de algum programa específico.

Não tenho, meu celular está ultrapassado, não tem mais espaço para baixar aplicativos, meu notebook tem mais de dez anos, só posso ouvir som com fone. Muitas vezes tenho que pedir o notebook da minha filha para fazer as atividades, porque no meu tranca. Pretendo comprar um notebook novo, mas os preços subiram em função do isolamento, estou esperando uma promoção para renovar meus equipamentos de trabalho.

Encantadas com a riqueza de dados e informações que estávamos recebendo, como quinta demanda, enviamos aos professores e professoras, a seguinte mensagem: “Envio a vocês uma imagem. Meu "home office". Quem sabe inventariamos todos que aqui estão? Como? Cada um faz uma imagem de seu cantinho de trabalho e envia. Eu organizo todos em um banner e envio a vocês por aqui...”
E parte considerável dos professores enviou, originando banners com imagens do trabalho, que tu podes conhecer aqui.
Agradecimento
O PET Educação, aqui representado por mim e pela Estefânia, agradece aos professores que se envolveram, manifestaram e publicizaram seus saberes em tempos de trabalho remoto.
A vida não é remota! É plural, repleta de desvios, curvas, emboscadas...
Mas, também, de veredas, poesias, oásis.
Continuemos...
Em breve, a continuidade do trabalho.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Catar piolhos: um continho


Catando piolhos
Alessandra Steilmann
Cristina Maria Rosa


Quando eu era pequena, minha Nonna nos dava dois reais para catar seus piolhos.
A Nonna não tinha piolhos.
Mas gostava de carinho.
Que penteássemos seus cabelos...
Que a tocássemos.
Minha Nonna nos dava dinheiro, uns trocados, para catar piolhos.
Para acarinhá-la enquanto nos contava histórias.
Do seu tempo e de sua meninice...
E isso me faz lembrar Daniel Munduruku.
Ele disse que “educar é como catar piolho na cabeça de criança”
E o que seria isso, eu perguntaria, se estivesse em sua frente.
Antes de eu perguntar, ele responde: “É preciso ter confiança, perseverança e certo despojamento”.
Mas Daniel, assim como minha Nonna, sabe que é preciso, também, “conquistar a confiança de quem se quer educar, para fazê-lo deitar no colo e ouvir histórias”.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Fábulas Italianas: eu recomendo


Fábulas italianas
Organizadas por Italo Calvino
Cristina Maria Rosa

Coletadas na tradição popular durante cem anos e transcritas a partir de diferentes dialetos, foi em 1954 que o trabalho para a produção do livro Fábula Italianas teve início. Nele, Italo Calvino valoriza a descrição de situações inverossímeis em pouquíssimas frases e, na apresentação, afirma que a obra é “uma montanha de narrativas extraídas da boca do povo em vários dialetos”, um patrimônio cultural que deve circular.
Para esse grande escritor italiano, o mundo “fabular popular italiano é de uma riqueza, limpidez, variedade e cumplicidade entre o real e irreal que não fica a dever nada aos fabulários mais celebrados”, aqueles que já conhecemos com fábulas de Esopo, de La Fontaine e dos Irmãos Wilhelm e Jacob Grimm.
Na edição brasileira da Companhia de Bolso, em 490 páginas há cem contos de maravilhas e encantos. Leia um pedacinho de um deles:

A camisa do homem feliz.

Um rei tinha um filho único e gostava dele com a luz dos próprios olhos. Mas o príncipe estava sempre descontente. Passava dias inteiros debruçado na sacada a olhar para longe.
- O que lhe falta, perguntava-lhe o rei. O que é que você tem?
- Não sei meu pai, nem eu mesmo sei.
- Estás apaixonado? Se quer uma moça qualquer, diga-me e será sua esposa, seja ela filha do rei mais poderoso da terra ou a mais pobre das camponesas.
- Não papai, não estou apaixonado.
E o rei tentava distraí-lo de todas as formas: teatros, bailes, música, cantos, mas nada adiantava e, a cada dia, desapareceriam do rosto do príncipe as nuances do vermelho.
O rei publicou um edital e, de todas as partes do mundo, vieram as pessoas mais instruídas, filósofos, doutores e professores. Mostrou-lhes o príncipe e pediu conselhos. Eles se retiraram para pensar e voltaram à presença do rei:
- Majestade, pensamos, lemos as estrelas. Eis o que deves fazer: Procure um homem que seja feliz, mas feliz em tudo e por tudo e troque a camisa do seu filho com a dele.
Naquele mesmo dia, o rei mandou os embaixadores mundo afora a fim de procurar o homem feliz.

Quer conhecer o final da fábula A camisa do homem feliz? Leia Fabulas Italianas, de Italo Calvino.
Leia Fábulas para seus filhos, sobrinhos, netos, alunos.
A literatura é a porta de entrada para todos os tipos de leitura!


sexta-feira, 8 de maio de 2020

GELC - Grupo de Estudos em Literatura para crianças


Um grupo de estudos para os pequenos leitores


Cristina Maria Rosa

Destinado a estudantes de Pedagogia da Faculdade de Educação da UFPel, no dia primeiro de maio de 2020 teve início a proposição, online, do GELC - Grupo de Estudos em Literatura para Crianças, coordenado pelo Doutora Cristina Maria Rosa e mediado pela estudante de Pedagogia e bolsista PET Educação Jéssica Corrêa.
Invenção
Criado em 1º de maio de 2020, o GELC –  Grupo de Estudos em Literatura para Crianças –, pensado para os estudantes de Pedagogia da Faculdade de Educação da UFPel teve início na segunda-feira, dia 04/05/2020. O intuito ao propor foi não perder o vínculo com um grupo de estudantes que, em março, frequentaram apenas uma aula da Literatura Infantil, disciplina optativa que a tutora do PET Educação, Drª. Cristina Maria rosa oferta à Pedagogia desde algum tempo. Ao experimentar estudar longe fisicamente, mas conectados via web, estamos nos propondo a ler, escrever, ouvir, falar...
É um grupo livre, não é vinculado ao currículo da Pedagogia, mas o tema a ser estudado é a literatura para crianças. Nesse grupo, utilizaremos o celular com mensagens de voz, mensagens digitadas, imagens trocadas e, até, pequenos vídeos. A plataforma da UFPel que oferece a possibilidade de web conferências também poderá ser acionada. Reunião home office para compartilharmos nossas impressões sobre os materiais e nos encontrarmos virtualmente, eventualmente serão marcadas.
Como não é uma disciplina, todos teremos de nos comprometer com o próprio aprendizado, inclusive, eu que nunca dirigi um grupo de estudos on-line. Mas quero muito aprender.
 Tarefa 1 – Ouvir
No dia 01/05/2020, indiquei – em uma mensagem de áudio e ao mesmo tempo por um tutorial em Power point – a audição de dois contos ou poemas do programa "Minutos Literários". E complementei dizendo que aqueles que já tivessem ouvido, deveriam escolher os dois que mais gostou e anotar seu autor, voz e tema abordado. Isso significa que temos que ter um bloco de anotações, diário ou caderno, para ter as tarefas organizadas.
2. Tarefa dois
Para ser comunicado em rede, no dia 18 de maio, a segunda tarefa é a escolha, por parte de cada integrante do grupo de um livro literário para crianças. Esse deverá ser lido durante todo o tempo que o grupo de estudos vai se desenvolver.
Minha sugestão foi dar preferência para clássicos de autores como: Ana Maria Machado, Bartolomeu Campos de Queirós, Carlo Colodi, Cecília Meireles, Charles Perrault, Clarice Lispector, Cora Coralina, Erico Verissimo, Eva Furnari, Fanny Abramovich, Fernanda Lopes de Almeida, Hans Christina Andersen, Joel Rufino dos Santos, José Saramago, Luis Camargo, Luís Dill, Manoel de Barros, Maria Clara Machado, Marina Colasanti, Mário Corso, Mario Quintana, Mary França e Eliardo França, Monteiro Lobato, Pedro Bandeira, Ricardo Azevedo, Ruth Rocha, Sérgio Capparelli, Sylvia Orthof, Tatiana Belinky, Wilhelm e Jacob Grimm e Ziraldo.
Futuro
Como prever? Como se antecipar? Impossível...
Então, em breve, aqui, a continuidade do grupo de leitura: tarefas e resultados.


domingo, 5 de janeiro de 2020

Empoderar meninas: a literatura que há

Pesquisa desenvolvida em 2019, apresentamos um grupo de livros que sim, podem ser lidos, fruídos e problematizados na escola e fora dela. São livros que abordam sutil ou profundamente, os temas que importam a meninas, adolescente e mulheres no século XXI.
Desenvolvida pelo grupo PET Educação e em especial pela estudante JÉSSICA CORRÊA RIBEIRO, foi orientada pela Drª. CRISTINA MARIA ROSA e premiada na SIIEPE UFPel. A seguir, o resumo:
INTRODUÇÃO: Com a investigação busco delinear um acervo literário cujo foco é o feminismo e violência contra a mulher. Objetivo conhecer se há e quais são os livros de literatura que podem ser acionados em práticas de leitura com meninas na escola. Um de meus objetivos é fornecer uma lista de títulos que auxiliem os professores e estudantes de Pedagogia quando tratar do feminismo e da violência contra a mulher. Segundo GARCIA (2009) “o feminismo se articula como filosofia política, e ao mesmo tempo, como movimento social”. Desse modo, é importante observar que o feminismo se encontra no cotidiano das relações humanas. No entanto, no ambiente escolar ainda existe um receio quanto ao fato de se utilizar esta temática, acredito que por construções históricas e sociais presentes na história da formação e do exercício docente. De fato, ainda existe muito para se conhecer e questionar sobre o feminismo, mas é imprescindível que se aborde essa temática na escola, especialmente com as meninas, por serem elas as primeiras vítimas da violência contra a mulher no Brasil. Segundo BEAUVOIR (1967, p.30) “Tudo contribui para confirmar essa hierarquia aos olhos da menina. Sua cultura histórica, literária, as canções, as lendas com que a embalam são uma exaltação do homem”. Realizar leituras literárias que apresentem protagonistas mulheres sugere, informa e confirma às meninas que existe um lugar para elas, um lugar que não precisa mais ser idealizado. Fenômeno caracterizado “por um constante e reiterado desrespeito ao outro”, a violência contra a mulher deve ser pautada na escola, de acordo com ROSA (2017). A pesquisadora afirma que é urgente e necessária a reflexão sobre esta temática e indica que a Literatura pode ser um interessante instrumento para que discussões sobre esse tema, que é de todos, sejam desencadeadas. Assim, elenca entre títulos interessantes a serem lidos, alguns dos contos clássicos. Eles trazem informações, sutilezas, insinuações e, ao serem fruídos, propõem pensar sobre a condição humana e a condição da mulher independente de época e lugar. Um deles, o conto grafado por Charles Perrault em 1697, Chapeuzinho Vermelho, é considerado um poderoso alerta a meninas desde então (ROSA, 2017). Em uma obra interface entre a Psicanálise e a Literatura intitulada Fadas no Divã, os autores Diana e Mário Corso (2006) avaliaram os impactos dos contos de fadas na construção dos sujeitos. Na mesma rota, QUEIRÓS (2009), defende que a Literatura “possibilita ao leitor dobrar-se sobre si mesmo e estabelecer uma prosa entre o real e o idealizado”. Ou seja, os alertas e denúncias que a literatura realiza, são fundamentais para as compreensões de si e do outro. Para ROSA (2017) “ao escolhermos uma obra a ser lida para nossas crianças em casa ou na escola, um grupo importante de critérios precisam ser considerados, entre eles, autoria, gênero, ilustrador, quantidade e qualidade do texto e até temas que podem desencadear indagações e diálogos acalorados”. Os critérios são fundamentais para a construção do diálogo, e facilitam no processo de procura de acervo. Estrutura acadêmica vinculada ao GELL – Grupo de Estudos em Leitura Literária da Faculdade de Educação da UFPel e apoiada pelo PET Educação –, a Sala de Leitura Érico Veríssimo está localizada no CCSH. É um ambiente de aprendizagens significativas e local pelo qual transitam professores e estudantes de vários cursos, entre eles, a Licenciatura em Pedagogia. Assim, ao realizar a pesquisa imagino facilitar a interação com o acervo que é amplo. Repletas de questionamentos e receios, as temáticas da violência de gênero, feminismo e empoderamento feminino demandam suporte teórico e mediação, o que pode ser feito a partir de: a) sujeitos (estudantes, pesquisadores, professores, familiares); b) obras adequadas, que apoiem o diálogo reflexivo e o tornem mais atraente e eficaz.
2. METODOLOGIA A metodologia de pesquisa é descrita por Minayo (1994, p. 16) como a confluência de “concepções teóricas de abordagem”, “conjunto de técnicas” que possibilitam a observação e análise da realidade e a influência do “potencial criativo do investigador”. Para a autora, a pesquisa qualitativa “responde a questões muito particulares” e se preocupa com “um nível de realidade que não pode ser quantificado” (MINAYO, 1994, p. 21). De acordo com essa abordagem, inicialmente empreendi uma pesquisa bibliográfica sobre os conceitos da temática escolhida. Pretendia tornar mais consistentes as concepções teóricas disponíveis sobre o feminismo e a violência contra a mulher. Logo depois, integrando o conjunto de técnicas, optei por:
a) Selecionar na SLEV um grupo de aproximadamente trinta títulos – corpus inicial – que mencionassem a temática do feminismo e/ou a violência contra a mulher;
b) Apresentar os títulos ao grupo PET Educação que integro como bolsista, a fim de que todos pudessem ler e escolher um para indicar à lista final;
c) Estabelecer como critério para o corpus final uma quantidade – onze livros literários – correspondendo às idades a quem seriam destinados – crianças entre quatro e quatorze anos;
d) Compor a lista de onze obras a serem indicadas; e) Escrita das conclusões.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO: Essa pesquisa surge com a necessidade de discussão sobre a temática do feminismo, além de possibilitar um apoio pedagógico aos estudantes e professores para que tenham consigo um acervo literário que aborde essa temática. Com doze bolsistas de semestres variados mais a presença da tutora, a discussão a respeito do que devia estar inserido na lista foi ampla e apaixonada. Após tocas, argumentos, considerações e disputas, a orientação criteriosa de livros adequados a crianças entre quatro e quatorze anos foi preponderante para as sugestões. Assim, os onze títulos selecionados e seus autores, organizados em ordem crescente de idade (4 aos 14 anos) são:
1) Maria vai com as outras, de Sylvia Orthof;
2) O cabelo de Lelê, de Valéria Belém;
3) Orie, de Lúcia Hiratsuka;
4) Teresinha e Gabriela, de Ruth Rocha;
5) Suriléa-mãe-monstrinha, de Lia Zats;
6) Chapeuzinho Vermelho, de Charles Perrault;
7) Flora, de Bartolomeu Campos de Queirós;
8) Marieta Julieta Raimunda da Selva Amazônica da Silva e Sousa, de Mariana Massarani;
9) 50 brasileiras incríveis para conhecer antes de crescer, de Débora Thomé;
10) Pele de Asno, de Charles Perrault;
11) Eu Sou Malala, de Malala Yousafzai.
Por fim, indico como futuro da pesquisa um seminário temático a fim de realizar o estudo e leitura das obras como suporte a ações de leituras literárias nas escolas a estagiários e professores interessados na temática. Como resultados, ainda, almejo divulgar o acervo em eventos, no Blog do PET Educação (http://peteducacao.blogspot.com/) e torna-lo disponível para leitura na SLEV - Sala de Leitura Erico Verissimo.
4. CONCLUSÕES: Ao realizar a pesquisa e formar a lista com onze títulos, pude concluir que existem livros de qualidade literária para serem lidos e problematizados. Nas obras selecionadas, temas como autoestima, aceitação, crescimento, empoderamento, a mulher na sociedade, violência contra a mulher, ser mulher profissional, histórias de mulheres, para mulheres, assédio moral/emocional e direitos e feminismo aparecem sutil ou abundantemente e, em alguns casos, desde o título. Os estudantes de Pedagogia e os professores que já estão nas redes de ensino públicas e privadas relatam grande dificuldade em encontrar um acervo para trabalhar com a temática do feminismo. Por isso, a importância de se realizar uma pesquisa com esse foco. Penso que um trabalho de análise possibilite a compreensão e exploração de títulos literários e seus desdobramentos na escola, com as crianças. Acredito que essa lista irá proporcionar auxilio e reflexão aos estudantes e professores, além de possibilitar uma leitura prazerosa e rica para futuras discussões. É importante ressaltar que os livros por si só já geram problematizações. No entanto, é necessário que o leitor reflita e questione durante sua prática de leitura para que assim haja uma interação e um diálogo prazeroso. Creio que a pesquisa irá gerar um momento literário magnífico para o leitor e seus ouvintes, pois a literatura é um instrumento, tanto para deleite, quanto para reflexões de si e do outro.

REFERÊNCIAS
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ROSA, Cristina Maria. Maus-tratos emocionais e violência “benévola”: O que a literatura tem a nos dizer sobre o tema? Alfabeto à Parte. 07 de Novembro de 2018. Acesso em 02/09/2019. Disponível em: https://crisalfabetoaparte.blogspot.com/search?q=literatura+e+maus+tratos
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